quinta-feira, 17 de abril de 2008

VIGIAR A RUA- 19/02/1987

VIGIAR A RUA

À Nanala
que quis entrar na minha solidão,
e entrou.

Ela acordou no meio da noite. Fazia um tempo que andava assim. Um sono tão leve, sem mergulhos. Uma hora da manhã chovia muito. Olhou por uma fresta da janela. Uma tempestade. O vento balançava as poucas árvores da rua; papéis voavam; um carro passou devagar. Voltou a dormir.

Quatro horas da manhã, acordou novamente. Dessa vez, foi diferente; sentia o corpo desperto, a mente lúcida. Por ela , dir-se-ia que eram onze horas da manhã, não quatro. A tempestade cedera e caía uma garoa fina sobre a rua. Abriu a persiana para ver melhor.

Era a responsável por relatórios diários sobre a rua à noite. Fora incumbida por um ser superior, um espírito de luz. Era por sua missão que agora tinha que ter essas visões noturnas e não uma noite de sono como a de qualquer mortal. Observava. Havia uma luz acesa no banheiro de um dos apartamentos do prédio em frente. Era um velho que mijava. A sua mulher, velha, também estava acordada na cama. Os velhos não dormem. Ficam em vigília com a morte. Só ela e um casal de velhos vigiavam a noite. Para que não caísse. A morte: para que não se misturasse com a noite e fosse tudo trevas, sem mais fim. A rua, para que não fugisse. Ou, fora a rua que a acordara. Sim, essa rua sinistra. Era uma amante insaciável. Urgente de sexo. Desejava dividir com ela sua solidão.

Parara de chover. A rua brilhava. Resolveu não pensar, mas a luz do banheiro ainda estava acesa. O velho escovava os dentes e a velha tomava banho.
Era incrível como as pessoas não se conheciam no mundo moderno. Morava ali a anos e nunca ouvira falar desses velhos antes. Pela luz os conhecera. E pela telepatia. Eram membros da mesma comunidade.

Pensou em escrever. Logo que se viu frente à folha, percebeu que era impossível. As palavras eram pobres. Chegou a riscar as que escrevera.
Tentou ler. Lia cada página três vezes porque o significado lhe fugia. As próprias palavras lhe escapavam, toda hora tinha que recomeçar. Ler foi bom porque fez o tempo passar. Começou, enfim, a sentir o corpo cansado.
Fez um chá. Quando retornou à janela, ficou surpresa. A luz que entrava tinha cor de manhã. Haiva esquecido como era. Os pássaros invisíveis estavam ali. Cantavam. Isso não havia sido programado. Pela primeira vez, fugia de sua missão. Era uma espiã.

Luzes começaram a serem acendidas nos prédios vizinhos. Algumas pessoas caminhavam na rua.
Estava na janela com uma xícara de chá; como ela deviam haver milhares no mundo inteiro. De súbito, percebeu a sua banalidade. E na banalidade, a sua grandeza. Ela era uma entre milhões e era milhões também.
Como ser especial era uma fórmula não dada. A grandeza não revelada a atraía. Ser espiã era o que lhe dava mais prazer. Pareceu-lhe que a luz era a forma da arte. Tudo estava contido em luz. A luz da manhã a escurecia. Ficou tão escura que quase não via.
Foi dormir. A luz entrava no quarto. Gostava de dormir sob o sol, e o sol gostava de dormir sobre ela. Finalmente, às oito da manhã, viver era mágico.

São Paulo, 19 de fevereiro de 1987.